domingo, 2 de fevereiro de 2014

ainda naquele mesmo ano (1990)...

Later That Same Year
Depois de minha recente postagem narrando (entre outras coisas) algo que aconteceu no final de 1990, idealizei um título em inglês para a postagem seguinte, e só depois me caiu a ficha que a frase em questão era o título do album acima...

A faixa-destaque do album acima (acho que dá pra ler, em sua capa, a chamadinha no canto direito superior, né?) é a mesma célebre composição de Joni Mitchell que, acho que muitos concordarão comigo, é bem chatinha na interpretação da autora, e mereceu uma versão bem mais bacana com Crosby, Stills, Nash & Young, tão bacana que acabou sendo a versão usada na trilha do famoso documentário.

Porém, eu chamaria a atenção do leitor do PALIgAP para que procure também conhecer a canção "Woodstock" na bonita versão dessa banda aí ilustrada, sobre a qual não sei muito, a não ser que era liderada por um certo Ian Matthews que participara da primeira formação do Fairport Convention (e seu nome artístico anterior era Ian McDonald, não confundir com o homônimo que tocou no King Crimson).
Uma semana após o show do Johnny Rivers no Olympia (que narrei no post de ontem c/ título "Guitar Hero"), a minha amiga e eu fomos surpreendidos com a notícia de que outra artista internacional se apresentaria na mesma casa de shows.
Eu tinha adquirido há pouco o vinil "Rhymes & Reasons", que acabaria se sedimentando como meu disco predileto da Carole King, mas mesmo assim não fiquei muito animado a ir.
Dois shows em dois fins-de-semana consecutivos (e ainda por cima no mesmo teatro) era um pouco cansativo, sem contar certos "micos" que tivemos que aguentar na semana anterior, que preferi omitir em minha narração do Johnny Rivers: como a grana era escassa, tivemos que assistir aquele show numa espécie de "poleiro" e, pior que isso, tivemos que dividir a mesa com outro casal que era muito chato!
Resumindo: resolvi "deixar passar" o show da Carole King. Mas mudei completamente de ideia na véspera da apresentação, quando um telejornal a entrevistou, talvez em algum saguão de hotel ou mesmo no aeroporto paulistano.
Na hora em que o repórter pediu alguma dica do que o público poderia esperar de seu show, ela olhou bem de frente para a câmera, mais ou menos na mesma posição da foto abaixo, abriu um sorriso também semelhante ao da foto porém muito mais escancarado, e disse, com muita firmeza: "WE'RE GONNA ROCK!!"


"We're gonna rock"

Imediatamente telefonei à minha amiga (a que me acompanhou pra assistir o Johnny), e fui falando: "Vamos lá!! Temos que ir!! Precisamos providenciar logo os ingressos, porque algo me diz que vai ser um puta show!!" 
(acabo de digitar a palavra que preferi substituir por "tremendo" ao descrever as habilidades guitarreiras do Johnny Rivers)
Dispusemo-nos até a aguentar os mesmos "micos" que o Olympia nos proporcionou antes. Compramos ingresso para o mesmo "poleiro", mas para nossa sorte outro amigo também se interessou em ir conosco. O ideal seria irmos em quatro; não encontramos essa quarta pessoa mas, estando em três numa única mesa, as estatísticas estavam a nosso favor: no pior dos casos seríamos maioria contra um único intruso pentelho.
Na noite do show (um sábado), sucedeu uma coisa que a Carole King não merecia: foi muito pouca a procura por ingressos.
O esquema era aquela caretice de mesas em vez de um auditório com poltronas (ou pista, já que ela tinha declarado que era "do rock"). Imaginem como seria constrangedor para a Carole King, tocar para um grande salão repleto de mesas vazias!
Foi aí que o futuro escritor do PALIgAP e mais outras centenas de felizardos ganharam seu premio na Mega-Sena (ou quase isso...):
À medida que o público chegava no teatro da rua Clelia, uma equipe de recepcionistas convidava TODOS aqueles que tinham comprado ingresso para a Plateia Superior a ocuparem, sem nenhum custo adicional, as mesas do salão inferior!
Resultado: assistimos ao show numa posição totalmente VIP! E já que a Carole King disse "We're gonna rock" vou fazer apenas 2 comentários de 2 momentos bastante roqueiros (dos momentos mais calmos, lembro de um ponto fraco, onde a culpa não foi da Carole: o piano que o Olympia disponibilizou era tão ruim que, na hora de fazer o solo instrumental da canção "It's too late", a Carole foi obrigada a vocalizar junto, ou seja, cantar cada nota para disfarçar a má afinação do instrumento!).
Talvez por raiva do piano, ou talvez simplesmente por ser "do rock", depois ela cantou uma música inteira DE PÉ EM CIMA DO PIANO! (a música era "Pleasant Valley Sunday", um rock bem agitadinho que ela e seu ex Gerry Goffin fizeram de encomenda para The Monkees)
Esse foi o melhor "momento Jerry Lee Lewis" da minha vida, e arrisco dizer que foi bem melhor que o vivido pelos conhecidos meus que assistiram ao vivo esse famoso performer (num show que não durou nem meia hora, com um Mr. Balls of Fire completamente bêbado)!
Outra coisa curiosa foi quando ela disse "E agora, um blues para vocês!", e começou a cantar "Chains", que a maioria de vocês deve conhecer com os Beatles.
Acontece que a versão dos Beatles, de blues não tem nada (mesmo com a gaitinha do Lennon). A gravação original (com The Cookies, um girl-group bem pop, como eram todos os girl-groups dos anos 50) tem menos ainda de blues.
Felizmente, nessa noite do final de 1990, ela interpretou "Chains" com o mesmo arranjo de um disco de regravações (de clássicos da dupla Goffin-King) que ela fizera em 1980. O disco se chamava Pearls, e quando eu comprara meu exemplar já tinha reparado: "Engraçado! Esse 'Chains' tem uns solinhos de guitarra... está meio com cara de Bluesbreakers!" (a banda de John Mayall com muitos guitar players sucessivos: Eric Clapton, Peter Green, Mick Taylor...)
No início desta matéria mencionei qual é meu disco preferido da Carole King, e agora acrescento que, na única vez que elegi os 10 melhores discos de minha coleção (isso já faz algumas décadas), ele foi incluso.
Eis sua capa:



Rhymes & Reasons

Para se compreender o disco acima existe um truque, de eficiencia comprovada para ouvintes do sexo masculino: ouça o disco inteiro prestando especial atenção na atuação do baixista (Charles Larkey). Quando terminar a última faixa ("Been to Canaan", que ela cantou naquela noite no Olympia) você estará se sentindo um King.

4 comentários:

  1. Finzi, eu sempre bebendo mais um pouco do seu conhecimento mudical.
    Muito legal.
    boy

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    1. Isso mesmo, Luiz Carlos. Você, "sempre bebendo"... Lembro que quando a Carole cantou "You've got a friend" você inventou de cantar junto, e assassinou a letra original. Mas está perdoado, afinal de contas o James Taylor (sóbrio) cometeu o mesmo crime. 1 abraço, volte sempre.

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  2. "Rhymes & Reasons" é meu disco favorito de Carole King, e um dos meus favoritos de todos os tempos. Uma coisa interessante nesse disco é que ela aumenta suas colaborações com a letrista/pintora Toni Stern. Mas mesmo assim sobra uminha para meu ídolo Gerry Goffin, que sabiamente diz em sua única faixa no disco: "No one ever loses anybody / Sometimes it's so hard to get along / I don't want to hang on to anybody / So before you say you're leaving / I'll be gone". E foi. Sumiu. Até 1990, quando os velhos parceiros foram merecidamente recebidos no Rock and Roll Hall of Fame.

    http://www.youtube.com/watch?v=XtbpqNJoceY

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    1. Neder, imagino que, assim como eu, depois de conhecer tantas parcerias com o nome "Toni Stern", você ficou intrigado, e desconfiou que Toni é uma mulher.
      Eu só confirmei minha suspeita nos últimos dias, pesquisando na internet quando preparava o post sobre a Carole para este PALIgAP. Mas não pensei n'um modo de inserir este dado biográfico da parceria/da parceira, por isso super agradeço a você pela contribuição.

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