domingo, 9 de fevereiro de 2014

to everything there is a season: a time for stereo, a time for mono

Ontem levei uma amiga para conversar, ouvir boa música e beber umas cervejas exóticas num bar bem no Centro da cidade de SP. As mesinhas ficavam num subsolo que felizmente estava bem climatizado, já que o calor nesses dias anda insuportável.
Mas o que mais me impressionou foi a qualidade da música de fundo. De umas caixas acústicas bastante bem colocadas, rolava uma seleção musical inacreditável. Vou listar aqui uma pequena amostra:
 
"I wish you would" com os Yardbirds;
"Situation Vacant" dos Kinks;
"She's a rainbow", que me fez virar um leitor atento de contracapas quando eu tinha 14 anos graças à presença do Nicky Hopkins;
"Green River", do Creedence, que conheci na trilha sonora da novela Beto Rockfeller;
"To Ramona", não na voz do seu compositor (Dylan) mas na linda versão dos Flying Burrito Brothers;
The Flying Burrito Brothers
3º album, inclui 'Ramona'
"Tangerine", para a qual o Renato Russo chamava a atenção de seus colegas de adolescencia, afirmando "essa música [do Led] é muito melhor que Stairway to Heaven!" (li isso numa biografia, e aviso que não sou fã da Legião Urbana, mas precisamos admitir que o Renato sabia várias coisas);
"Pleasant Valley Sunday"... incrível como este minor hit dos Monkees está sendo citado pela segunda vez (consecutivamente) aqui nos posts do PALIgAP!
"Wasn't born to follow", outra linda composição de Goffin & King que os Byrds tornaram ainda mais bela (está na trilha do Easy Rider);
"Wild Child", obscuro lado B dos Doors;
"Get it on (Bang a gong)" do T. Rex;
"I can't make up my mind"... quando tocou essa obscura canção dos Zombies, peguei no braço da minha amiga e disse: "Preste atenção nisso!! Quem será esse programador que foi adivinhar uma das minhas pérolas favoritas??"

E voltei a cutucar a moça quando começou a tocar outra dos Byrds, "It won't be wrong". Disse pra ela, "essa também é bárbara!"
Mas, quando tinha rolado mais ou menos meio minuto da música, senti uma decepção: o audio do bar, que até então eu estava achando ótimo, me pareceu uma porcaria!
 
Mas a culpa não era tanto assim do pessoal do bar. A explicação é que estavam tocando essa música em sua mixagem stereo. As caixas acústicas estavam bastante separadas, e para que ninguém diga que sou inimigo do stereo, a separação de canais criou uma ambientação muito boa para, exemplificando, "Tangerine", "Bang a gong", e ATÉ MESMO a outra música dos Byrds que foi tocada antes ("Wasn't born to follow").
 
Mas no caso de "It won't be wrong" e todo o album ao qual essa faixa pertence, o stereo é desastroso.
 
Isso me remete à época que adquiri o disco em questão, Turn Turn Turn.
 
Comprei-o num dos encontros (FEIRAS) de colecionadores que naqueles idos de 1987 eram feitos num galpão da rua Matias Aires. O disco pertencia a um colecionador argentino (de quem viria a comprar outros discos, quando ele se tornou proprietário de uma loja).
Fiquei receoso em adquirir o disco, pois sua superfície apresentava vários arranhões, e havia um agravante: o disco não era estereofônico. Mas o preço era convidativo, e o dono do disco, falando com seu carregado sotaque portenho, garantiu que os riscos eram superficiais e o disco tocava direitinho. Fiz portanto a compra.
Quando cheguei em casa e pus o disco para tocar, foi uma felicidade imensa, pois a prensagem era tão boa, e o som tão alto e nítido, que os eventuais chiados ou estalidos se tornavam imperceptíveis!
 
Hoje, infelizmente não tenho mais o hábito de registrar a data em que adquiro cada disco de minha coleção. Mas na época eu anotava tudo minuciosamente, então posso dizer que 19 de julho de 1987 significou (já que o disco se chama Turn Turn Turn) um turning point em minha maneira de se prestar atenção ao som de um disco. Como diz uma outra amiga (também apreciadora de cervejas exóticas, de preferencia acompanhadas de azeitonas), talvez comecei a aprender um pouco as diferenças entre escutar e ouvir...
 
Claro que não percebi nada disso (sobre essa data divisora de águas) na ocasião. Escrevo isso hoje fazendo um retrospecto. Mas com certeza, logo depois daquela data, rapidamente passei a perceber que, muitíssimas vezes, uma edição mono dá de dez a zero em seu equivalente stereo.

Turn! Turn! Turn!
capa da edição mono (EUA)
 
Turn! Turn! Turn!
capa da edição stereo (EUA)
 
As duas capas que "colei" acima são para ilustrar, novamente, o curioso truque da indústria americana de discos para diferenciar as edições mono e stereo de um mesmo disco (vide minha postagem de 23 de janeiro com título "1-2-3-g-ravando", onde falei do disco dos Young Rascals).
Mais uma vez, a capa da edição stereo é pior que da edição mono, pois boa parte das vestimentas dos cinco "byrds" foi empurrada para trás (e escondida pelo cartão da contracapa) . Considerando-se a importancia que tinha (e continua tendo) o elemento fashion dentro da cultura pop, foi uma falha considerável.
 
Alguns anos depois que adquiri meu Turn Turn Turn mono, emprestei-o a um amigo, de iniciais P.P.P. ("Paixão Pelo Palmeiras", hehe). Na época o cara tinha a metade da minha idade, mais foi dele que recebi, pela primeira vez, muitas das dicas sobre as vantagens daquele exemplar mono (inclusive o comentário sobre a capa); se não fosse esse cara, hoje talvez eu tivesse cometido a burrice de substituir esse Byrds mono, já um pouco gasto, por um stereo near mint. É a ele que dedico este post.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

ainda naquele mesmo ano (1990)...

Later That Same Year
Depois de minha recente postagem narrando (entre outras coisas) algo que aconteceu no final de 1990, idealizei um título em inglês para a postagem seguinte, e só depois me caiu a ficha que a frase em questão era o título do album acima...

A faixa-destaque do album acima (acho que dá pra ler, em sua capa, a chamadinha no canto direito superior, né?) é a mesma célebre composição de Joni Mitchell que, acho que muitos concordarão comigo, é bem chatinha na interpretação da autora, e mereceu uma versão bem mais bacana com Crosby, Stills, Nash & Young, tão bacana que acabou sendo a versão usada na trilha do famoso documentário.

Porém, eu chamaria a atenção do leitor do PALIgAP para que procure também conhecer a canção "Woodstock" na bonita versão dessa banda aí ilustrada, sobre a qual não sei muito, a não ser que era liderada por um certo Ian Matthews que participara da primeira formação do Fairport Convention (e seu nome artístico anterior era Ian McDonald, não confundir com o homônimo que tocou no King Crimson).
Uma semana após o show do Johnny Rivers no Olympia (que narrei no post de ontem c/ título "Guitar Hero"), a minha amiga e eu fomos surpreendidos com a notícia de que outra artista internacional se apresentaria na mesma casa de shows.
Eu tinha adquirido há pouco o vinil "Rhymes & Reasons", que acabaria se sedimentando como meu disco predileto da Carole King, mas mesmo assim não fiquei muito animado a ir.
Dois shows em dois fins-de-semana consecutivos (e ainda por cima no mesmo teatro) era um pouco cansativo, sem contar certos "micos" que tivemos que aguentar na semana anterior, que preferi omitir em minha narração do Johnny Rivers: como a grana era escassa, tivemos que assistir aquele show numa espécie de "poleiro" e, pior que isso, tivemos que dividir a mesa com outro casal que era muito chato!
Resumindo: resolvi "deixar passar" o show da Carole King. Mas mudei completamente de ideia na véspera da apresentação, quando um telejornal a entrevistou, talvez em algum saguão de hotel ou mesmo no aeroporto paulistano.
Na hora em que o repórter pediu alguma dica do que o público poderia esperar de seu show, ela olhou bem de frente para a câmera, mais ou menos na mesma posição da foto abaixo, abriu um sorriso também semelhante ao da foto porém muito mais escancarado, e disse, com muita firmeza: "WE'RE GONNA ROCK!!"


"We're gonna rock"

Imediatamente telefonei à minha amiga (a que me acompanhou pra assistir o Johnny), e fui falando: "Vamos lá!! Temos que ir!! Precisamos providenciar logo os ingressos, porque algo me diz que vai ser um puta show!!" 
(acabo de digitar a palavra que preferi substituir por "tremendo" ao descrever as habilidades guitarreiras do Johnny Rivers)
Dispusemo-nos até a aguentar os mesmos "micos" que o Olympia nos proporcionou antes. Compramos ingresso para o mesmo "poleiro", mas para nossa sorte outro amigo também se interessou em ir conosco. O ideal seria irmos em quatro; não encontramos essa quarta pessoa mas, estando em três numa única mesa, as estatísticas estavam a nosso favor: no pior dos casos seríamos maioria contra um único intruso pentelho.
Na noite do show (um sábado), sucedeu uma coisa que a Carole King não merecia: foi muito pouca a procura por ingressos.
O esquema era aquela caretice de mesas em vez de um auditório com poltronas (ou pista, já que ela tinha declarado que era "do rock"). Imaginem como seria constrangedor para a Carole King, tocar para um grande salão repleto de mesas vazias!
Foi aí que o futuro escritor do PALIgAP e mais outras centenas de felizardos ganharam seu premio na Mega-Sena (ou quase isso...):
À medida que o público chegava no teatro da rua Clelia, uma equipe de recepcionistas convidava TODOS aqueles que tinham comprado ingresso para a Plateia Superior a ocuparem, sem nenhum custo adicional, as mesas do salão inferior!
Resultado: assistimos ao show numa posição totalmente VIP! E já que a Carole King disse "We're gonna rock" vou fazer apenas 2 comentários de 2 momentos bastante roqueiros (dos momentos mais calmos, lembro de um ponto fraco, onde a culpa não foi da Carole: o piano que o Olympia disponibilizou era tão ruim que, na hora de fazer o solo instrumental da canção "It's too late", a Carole foi obrigada a vocalizar junto, ou seja, cantar cada nota para disfarçar a má afinação do instrumento!).
Talvez por raiva do piano, ou talvez simplesmente por ser "do rock", depois ela cantou uma música inteira DE PÉ EM CIMA DO PIANO! (a música era "Pleasant Valley Sunday", um rock bem agitadinho que ela e seu ex Gerry Goffin fizeram de encomenda para The Monkees)
Esse foi o melhor "momento Jerry Lee Lewis" da minha vida, e arrisco dizer que foi bem melhor que o vivido pelos conhecidos meus que assistiram ao vivo esse famoso performer (num show que não durou nem meia hora, com um Mr. Balls of Fire completamente bêbado)!
Outra coisa curiosa foi quando ela disse "E agora, um blues para vocês!", e começou a cantar "Chains", que a maioria de vocês deve conhecer com os Beatles.
Acontece que a versão dos Beatles, de blues não tem nada (mesmo com a gaitinha do Lennon). A gravação original (com The Cookies, um girl-group bem pop, como eram todos os girl-groups dos anos 50) tem menos ainda de blues.
Felizmente, nessa noite do final de 1990, ela interpretou "Chains" com o mesmo arranjo de um disco de regravações (de clássicos da dupla Goffin-King) que ela fizera em 1980. O disco se chamava Pearls, e quando eu comprara meu exemplar já tinha reparado: "Engraçado! Esse 'Chains' tem uns solinhos de guitarra... está meio com cara de Bluesbreakers!" (a banda de John Mayall com muitos guitar players sucessivos: Eric Clapton, Peter Green, Mick Taylor...)
No início desta matéria mencionei qual é meu disco preferido da Carole King, e agora acrescento que, na única vez que elegi os 10 melhores discos de minha coleção (isso já faz algumas décadas), ele foi incluso.
Eis sua capa:



Rhymes & Reasons

Para se compreender o disco acima existe um truque, de eficiencia comprovada para ouvintes do sexo masculino: ouça o disco inteiro prestando especial atenção na atuação do baixista (Charles Larkey). Quando terminar a última faixa ("Been to Canaan", que ela cantou naquela noite no Olympia) você estará se sentindo um King.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Guitar Player


Eu não sabia se chamava este post de "Guitar Player" ou de "Guitar Hero". Acabei escolhendo a primeira opção por causa de uma revista estrangeira, da qual conheci muito poucos exemplares, mas que me impressionou bastante por sua seriedade.
A primeira revista "Guitar Player" que conheci trazia na capa o Frank Zappa. E o Zappa é um de meus Guitar Heroes, ao lado de Hendrix, Mike Bloomfield, Roy Buchanan e algumas fases do Clapton.
Alguns de vocês vão se espantar ao ver essa foto acima (tirada nos anos 60) ilustrando um post chamado "Guitar Player". De fato o rapazinho está tocando uma guitarra (é uma Gibson?), mas quem o reconheceu sabe que ele nunca foi um famoso guitarrista, e sim um famoso cantor (talvez mais famoso no Brasil que em seu país natal, os Estados Unidos).
Em 1990 assisti a vários shows importantes. Vi o primeiro show brasileiro do Bob Dylan (no Hollywood Rock); vi o Paul McCartney no Maracanã; vi o Eric Clapton na (hoje extinta) casa de shows Olympia, na rua Turiassu.
No início de dezembro daquele ano, uma amiga querida (querida até os dias de hoje) fez-me uma proposta que me pareceu meio brega: "Vamos assistir o Johnny Rivers no Olympia?"
Devo confessar que aceitei ir muito mais pela qualidade da companhia do que pela qualidade que eu esperava do show.
O início do show foi meio esquisito, pois o que vi foi um trio de guitarra-baixo-bateria, com muito mais ênfase no instrumental que nas partes cantadas. Para dizer a verdade, o que me surpreendeu um pouco foi o visual do Johnny Rivers, pois há mais de vinte anos eu via ele em fotos como a da capa de disco abaixo (um dos que mais gosto em sua obra gravada):
Slim Slo Slider
Desta vez, porém, em vez do visual hippie, ele estava com um cabelo bem curtinho, de terno, muito parecido com a foto que abre este post (que afirmei ser da década de 1960, mas não tenho tanta certeza assim).
E, mais que o visual, o que me surpreendeu foi o que me levou a responder assim, a cada um que me perguntou sobre o show nos dias seguintes: "Eu não sabia que ele é um tremendo d'um guitarrista!" (a palavra não foi exatamente esta que ressaltei em negrito)
E depois afirmei, sem nenhum medo de errar: "Ele solou tudo que o Clapton não solou em seu show no meio deste ano!"
De fato, o show do Clapton não fôra tudo o que eu esperava, e a comparação foi incentivada pelo fato de que eu assistira a ambos no mesmo auditório.
Outro fator que forçou a comparação é que, agora em dezembro, houve uma espécie de "jam" em que o Johnny Rivers tocou um longo trecho de "Hideaway", um standard dos blues que fez parte do repertório de Clapton quando este integrou a banda Bluesbreakers, do lendário John Mayall.
Para não dizer que o show foi maravilhoso, a segunda parte foi um pouco frustrante, quando o trio de guitarra, baixo e bateria foi aumentado por duas "peruas" cafoníssimas que entraram no palco para fazer os backing-vocals.
Agora vou comentar outro show do Johnny Rivers, mas antes devo dizer que esse show em dezembro de 1990 não encerrou minha "agenda" daquele ano. Num próximo "post" falarei de outra surpresa que me aguardava na semana seguinte, naquele mesmo Olympia...
Faço um salto para 1998, um domingo ensolarado no Parque do Ibirapuera, quando vi um "guitar player" completamente diferente daquele do Olympia, e é difícil dizer qual dos dois era melhor!
Desta vez o Johnny estava com uma cara um pouco mais parecida com a da foto acima, acrescida porém de uma barbicha. Mas a pose era essa aí: totalmente roqueira (e essa guitarra aí só pode ser uma Gibson!)
Era uma banda de cinco músicos, incluindo o cantor: tinha um tecladista, um baixista, um baterista e um guitarrista que fazia os solos. Mas durante o tempo todo o Johnny, além de cantar, não parou de tocar guitarra-base.
O momento "guitar hero" aconteceu num momento que eu chamaria de sincronicístico, porque aconteceram duas coisas, e eu não consigo me lembrar qual delas eu percebi primeiro. Portanto, vou enumerá-las, um e dois, não lembro a ordem, mas terminou com as duas coisas acontecendo ao mesmo tempo:
1 - um rapaz levantando sua namorada nos ombros, para que ela enxergasse melhor o palco, e essa moça usava uma camiseta com a estampa do Jimi Hendrix;
2 - Johnny Rivers, que até então só tocara músicas conhecidas de seu próprio repertório, nessa hora executou uma perfeita "cover" da canção "The Wind Cries Mary", do primeiro album de Jimi Hendrix, Are You Experienced (a edição norte-americana)!
(houve outra surpresa, outra música que não fazia parte do repertório gravado do Johnny: "The Letter").
Entre esses dois shows, passei a escutar seus discos com mais atenção, e foi só então que passei a reparar no dedilhado que existia em tantas músicas, que poderia muito bem ser de um músico acompanhante, mas percebi que havia um estilo comum, em vários albuns.
Agora, de memória, sem estar ouvindo seus discos, se eu tiver que aconselhar ao leitor uma canção que seja emblemática do "toque do guitar player Johnny Rivers", sugiro a canção "Look to Your Soul", do album Realization.
Realization
Ops! Após uma pausa (gap) de várias horas, estou finalizando esta matéria com o Realization girando no toca-discos, e percebo que a faixa que citei pode não ser o exemplo ideal, pois estou escutando "Look to Your Soul" e não estou conseguindo ouvir com nitidez as tais guitarras. Mas... juro que elas estão lá (enterradas na mixagem). O fato é que cada vez que mentalizo essa música eu me acompanho imaginariamente com essas guitarras, ignorando o resto do arranjo. Talvez este seja o truque para eu poder acrescentar no meu curriculum que... aprendi a tocar guitarra com o Johnny Rivers!!