sábado, 25 de janeiro de 2014

minhas aventuras colecionando Led Zeppelin - parte 1

Você que começa a ler esta matéria poderá ter a ideia de que o Led Zeppelin é uma das bandas que formam meu Top Ten ou quem sabe Top Five de predileção. Não, absolutamente não é, e talvez é justamente por isso que falo deles nessas minhas primeiras aprendizagens de blogueiro. Pra mim ainda é muito complicado narrar minhas andanças com os vinis do Frank Zappa e do Jethro Tull - de qualquer forma, tenho intenção de citar um desses 2 nomes no final da postagem.
 
Esta matéria tem o subtítulo "parte 1", mas não fala do primeiro disco que adquiri do Led, e sim do Led Zeppelin I, e aproveito para substituir a fonte Arial por outra porque fico inseguro ao ler algarismos romanos não serifados.
 
Comecei comprando o Led IV na época de seu lançamento aqui no Brasil (1972), mas pouco tempo depois, quando decidi que o Led era uma banda colecionável, os 3 álbuns anteriores já estavam fora de catálogo - o que era até um alívio, pois aquelas edições da CBD Phonogram tinham umas capas fantasmagóricas, principalmente o segundo LP, cuja contracapa ostentava um horripilante texto do Nelson Motta.

Em comparação, a capa da primeira edição nacional do Led I era caprichadinha, mantendo inclusive o fundo cor-de-laranja na contracapa. Mas eu, na época, me recusaria a comprar aquela edição, que era tão pobre, mas tão pobre que... nem sequer era em stereo!
 
Bem, fosse stereo ou fosse mono, o fato é que aquela edição estava fora de catálogo.
 
Nossa oportunidade de montar a coleção do Led surgiu em 1974, quando o Led I foi relançado no Brasil. Falo "nossa oportunidade" porque, além de mim, muitos adolescentes da minha idade também compraram o disco (lembro até que comprei o meu numa loja da Avenida São João, por um preço um pouquinho mais baixo que o das lojas que eu frequentava mais: Brenno Rossi, Museu do Disco, Bruno Blois).
 
Tenho certeza que todos esses colegas adolescentes tiveram a mesma sensação que eu quando colocaram o disco pela primeira vez em suas vitrolinhas: o impacto causado pela primeira faixa, "Good Times Bad Times". Essa música nunca tocava no rádio, então tenho certeza que quase todos nós a conhecemos diretamente de nossos vinis. Não afirmo que tenha sido um impacto atordoante, estrondoso, como fora o caso com "Whole Lotta Love", "Immigrant Song"... a gente apenas pensava: "puxa, essa musiquinha até que é bem bacana..."
 
Mas havia um porém. Os discos do selo Atlantic tinham passado a ser lançados aqui no Brasil pela fábrica Continental, que rapidamente ganhou o apelido "Conxiiinental", tamanha era a quantidade de chiados que vinham embutidos em cada exemplar vinílico!
 
A cada disco que adquiríamos da Continental (e eram muitos os artistas: Rolling Stones, Yes, Emerson, Lake & Palmer, King Crimson, Neil Young) vinha aquela enxurrada de reclamações de nossa parte (nós, pobres consumidores). Só como exemplo, vamos destrinchar as deficiencias desse Led Zeppelin I:
 
1 - Ao contrário da edição anterior (com contracapa alaranjada), essa aqui vinha totalmente em branco e preto;
2 - Havia um erro de edição de som no lado um: no master original a faixa "You Shook Me" (um blues de autoria de Willie Dixon) tinha seu final emendado com o início da música seguinte, "Dazed and Confused". Aqui no Brasil foi criado o tradicional intervalo de 3 a 5 segundos (nunca ouvi na íntegra a edição da CBD Phonogram, mas sei por fonte segura que lá fora respeitada a concepção do master original). Pelo menos não repetiram o erro no lado dois, onde mantiveram corretamente a transição sem intervalo entre "I can't quit you baby" (do mesmo bluesman) e a faixa que encerra o disco, "How many more times".
 
Faço um salto agora para os anos 90, quando o CD virou coqueluche, diversos colecionadores se desfizeram de seus vinis, e o resultado é que, em poucos anos, sempre frequentando sebos, consegui que a quase totalidade dos meus LPs de fabricação nacional fosse substituída por seus originais importados, pagando preços muito baratos. Imaginem vocês meu alívio ao adquirir o Led Zeppelin I em sua prensagem norte-americana da Atlantic Records, com o característico selo vermelho e verde, e poder me livrar do meu "Conxinental", oferecendo-o a preço de banana num desses mesmos sebos. E o melhor de tudo era poder ouvir aquele som de um jeito bem pauleira! É verdade que estranhei um pouco a ausencia de agudos em "Good Times Bad Times", mas seria questão de eu me acostumar...
 
Pois bem, caro leitor... devo confessar que levei um par de anos pra me conscientizar da cagada que eu tinha cometido desfazendo-me do exemplar Continental, que já não chamo mais de Conxinental porque... sim, os chiados realmente existiam, mas junto com os chiados
havia um trabalho técnico de contraste entre graves e agudos que era muito melhor que aquela MERDA importada, com os agudos totalmente abafados! Provavelmente era uma reedição do final dos anos 70 ou início dos 80. Seria preciso caçar uma primeira ou segunda prensagem, o que para mim ainda era difícil distinguir na hora da compra, pois os discos da Atlantic americana, desde que existe o Led Zeppelin, sempre vêm com o mesmo selo vermelho e verde!
 
Mas eu, de certa forma, já sabia o caminho das pedras: já tivera a sorte de conseguir o Led Zeppelin III e o Led Zeppelin IV em suas edições inglesas.
Não é tão difícil achar um LP Atlantic britânico com o mesmo selo vermelho e verde dos Estados Unidos. A dica que dou agora ao leitor-colecionador é ir sempre atrás deste selo aqui embaixo:

 
Até o comecinho dos anos 70 (afirmo isso porque meu Led IV, de 1971, é com o selo acima), a Atlantic inglesa mantinha em seu selo as mesmas cores que a matriz americana tinha abandonado na metade dos anos 60. Para ser mais específico, essas cores acima caracterizavam as edições mono da Atlantic americana, ao passo que as edições stereo eram uma combinação de azul e verde, e outras duas combinações de cores eram usadas para o mono e para o stereo da subsidiária da Atlantic chamada Atco.
 
Dos discos da Atlantic inglesa com o selo acima, todos que conheço são stereo (os Led's citados e o In-a-gadda-da-vida do Iron Butterfly). Mas os dizeres mágicos estão na parte inferior desses selos.
 
Consegue visualizar a ilustração, caro leitor?
A Atlantic inglesa mandava prensar seus discos na Polydor! E as prensagens da Polydor inglesa dessa época (metade dos anos 60  até início dos 70) eram um arraso, conforme tive o prazer de conferir em LPs do Cream, de Jimi Hendrix e do Who (estes dois últimos através do selo Track).
 
Quando encontrei o Led I com o selo acima na feira de colecionadores que se realiza algumas vezes por ano na av. Paulista (assunto para futura matéria) percebi que minha busca tinha terminado. Abandonei a edição americana e recuperei para meus ouvidos a estridencia das audições dos anos 70 de "Good times bad times" e "Babe I'm gonna leave you".
 
Isso tudo na mesma época em que, depois que tive (e ainda tenho) tantos exemplares importados da magnífica antologia do Jethro Tull chamada Living In The Past, meu prazer auditivo só foi recuperado quando consegui de novo a primeira edição (segunda encadernação) dessa maravilha, igualzinha ao exemplar que eu comprara (e depois me desfizera) em 1973... Outro bom trabalho da Gravações Elétricas S.A./Discos Continental!!!
 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

como surgiu o título para o melhor disco da história do rock 'n' roll

O disco se chamaria "Everest", por dois motivos: porque este era o nome da marca de cigarros que o engenheiro de som Geoff Emerick fumava, e porque dava aquela dimensão transcendental, de atingir as máximas alturas, e o som do disco tinha uma atmosfera muito "high", enfim... baboseiras idealizadas por Paul McCartney, que ainda por cima quis bolar como seria a capa: os quatro Beatles viajariam até a cordilheira do Himalaia, e seriam fotografados escalando o monte Everest!
Sabem por que nada disso aconteceu? Graças ao bom e velho RINGO, que chegou pro Paul e disse:
"Você quer que eu vá pro Himalaia só porque o disco se chama "Everest"? NEM FODENDO!! Você não acha que é muito mais fácil (e barato) nós quatro darmos um pulinho até a esquina? A gente volta pro estúdio depois de 15 minutos e chama o disco de "Abbey Road"!
Palavras de Geoff Emerick: vocês podem não acreditar, mas foi assim que surgiu o nome do disco.
 
Este post é uma adaptação livre da narrativa que está nas páginas 383/384 do livro "Here, There and Everywhere - Minha Vida Gravando os Beatles", de Geoff Emerick, já comentado neste blog.

coisas de... Moraes

"Coisas" (1965), do maestro Moacir Santos, é um disco tão prestigioso quanto raro. Falo da edição original, do selo Forma. Num sábado, na praça Benedito Calixto, EU VI um japonês tirar 1500 reais do bolso, em cash, e entregar a um conhecido meu que tem banca naquela feirinha de Pinheiros que tanto gosto de frequentar. E podem ter certeza que o gringo em questão iria revendê-lo na Terra do Sol Nascente pelo dobro ou triplo daquele preço!
Foi lançada agora uma primorosíssima reedição, em vinil 180 gramas, fabricado pela Polysom. O capricho se estende ao acabamento gráfico mas, infelizmente, no interior da capa dupla há a seguinte nota: "Por razões jurídicas, não foi possível a reprodução completa da arte original do LP 'Coisas'. Mantém-se inalterado o conteúdo musical."

COISAS
Na imagem acima, o interior da capa dupla original
 
Resumindo a história: o fotógrafo da capa original vetou o uso de sua obra.
Isso tem acontecido bastante de um tempo para cá. Saíram caixas de CDs dedicadas às obras dos seguintes artistas: Nara Leão; Maria Bethania; Edu Lobo; Gal Costa. Pois bem, em cada um desses "boxes", há um CD em que a capa original foi substituída por outra, porque o fotógrafo vetou.
Sairam diversas resenhas dessas coleções de CDs, nos jornais impressos e on-line, e cada resenha citava o veto e a troca de capa.
Mas nenhum desses resenhadores teve o trabalho que eu me impus de, a cada uma dessas notícias, ir buscar a capa do meu vinil da época e olhar, na contracapa, o crédito com o nome do fotógrafo. Teriam percebido que em todos esses casos o fotógrafo é sempre o mesmo: Pedro de Moraes.
O leitor deve estar pensando: esse Claudio é fodão, ele tem até o vinil original do "Coisas"!
Bem que gostaria, mas não é tanto assim: tenho a reedição em CD que saiu há 10 anos, e o encarte deste ainda inclui o trabalho fotográfico do tal de Pedro de Moraes, com o devido crédito. Parece que ele resolveu pôr as manguinhas de fora depois, e proibiu que fossem relançados com as artes originais os importantíssimos discos da MPB cujas capas estou colando aqui abaixo:
 Nara Leão (LP de 1968)

Edu e Bethania


Gal canta Caymmi

Escrevi "o tal de Pedro de Moraes" de forma irônica. Ele não é nenhum zé-ninguém e sabe muito bem disso. Deixei para o final desta postagem a parte mais curiosa: além das antologias de Nara, Edu Lobo, etc., o encrenqueiro do Pedro de Moraes prejudicou até a caixa dedicada a seu próprio progenitor, o poetinha Vinicius!
Vinicius: poesia e canção, vol. 1

Vinicius: poesia e canção, vol. 2


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

outro mago dos botõezinhos

Parece mentira que 2 das minhas 3 postagens até agora no PALIgAP não falam de músicos mas sim de engenheiros de som.
 
Roy Cicala, que faleceu na última 3a feira aqui em SP, ficou famoso sobretudo por sua participação técnica em discos como Imagine e Mind Games, ambos de John Lennon. Participou de muitos outros discos de artistas famosos. Os que lembro mais, que estão em minha coleção, são esses dois do Lennon, e o disco de estreia (1966) dos Young Rascals, cuja capa reproduzo cá abaixo.

Fiz questão de postar aqui uma capa igualzinha à do meu exemplar, que é mono. Na edição stereo, o mesmo cartão que vinha nas duas edições era dobrado de maneira diferente. A palavra "mono", que espero que o leitor consiga ler na parte de baixo da ilustração, é deslocada para a parte traseira (sendo coberta pelo cartão da contracapa), e acima do nome "Young Rascals" surgiam os dizeres "stereo". Um interessante recurso da indústria gráfica norte-americana, porém, nessa capa dos Young Rascals o resultado (na capa stereo) é que sumia mais de metade da espécie de móvel em que os músicos estavam apoiados, o que foi um grave erro, pois esse móvel era nada menos que um poderoso órgão Hammond modelo B-3, que era declaradamente o cartão de visitas do som da banda, com texturas sensacionais criadas pelo tecladista Felix Cavaliere. Mas essas texturas não apareceriam para o ouvinte se o som desse instrumento não fosse captado com perfeição pelo Roy Cicala. Outra coisa que impressiona nos discos dos Rascals é a qualidade da bateria (tocada pelo estupendo Dino Danelli). Não sei se existe um livro contando as memórias de estúdio do Roy Cicala, mas imagino algo parecido com o que estou lendo na bio do Geoff Emerick: saber colocar os microfones nos lugares certos, para o que às vezes é preciso ousar e inventar posicionamentos de equipamentos que vão contra as normas dos estúdios.
 
Jimmy Page escreveu um livro em que mostra sua genialidade mais como produtor que como músico. A bateria de John Bonham no Led Zeppelin é tão boa, não tanto por ser bem tocada, mas por ser muito bem gravada. Page revela que fez questão que sua banda fosse do selo Atlantic (mesmo selo dos Rascals), selo que ele idolatrava. Muito malandramente, porém, ele "esqueceu" de confessar o quanto sua habilidade de produtor foi aprendida prestando atenção no trabalho dos engenheiros de som e produtores que prestavam serviços à Atlantic, como o Tom Dowd e o nosso amigo Cicala.
 
Cicala viveu as últimas décadas por aqui, produzindo bandas brasileiras que ficaram extasiadas pela oportunidade de trabalhar com o produtor de Lennon, Lou Reed e Miles Davis, entre outros. A verdade, porém, pelo que andaram me soprando, é que ele foi mais um dos produtores que arruinou sua carreira devido a envolvimento com drogas (outro exemplo foi o Andy Johns). Veio tentar a sorte com bandas brasileiras porque nos EUA ninguém mais queria contratá-lo para serviço nenhum.
 
Finalizo essa postagem com a promessa de explicar, numa matéria futura, por que comecei falando dos YOUNG RASCALS e depois foi virando apenas RASCALS. Todos deixamos de ser jovens, mas havia também outros motivos...


1-2-3-g-ravando

Beatlemaníacos como eu talvez conheçam o livro "Summer of Love - The Making of Sgt.
Pepper", de autoria de GEORGE MARTIN, que saiu aqui em 1995 traduzido para "Paz, Amor e Sgt. Pepper". Foi ótimo ver o relato do "quinto beatle" contando vários detalhes técnicos de como foi feito aquele disco.
Mas uma coisa naquele livro me deixou com a pulga atrás da orelha: em uma certa página, que tentarei encontrar em minha edição antes de publicar esta minha postagem, Mr. Martin fez uma ressalva mais ou menos assim: "... embora Pepper não seja meu album favorito dos Beatles; pessoalmente, gosto mais de Abbey Road..."
Àquela altura, eu também já gostava bem mais do Abbey Road que do Sgt. Pepper. Os outros que eu idolatrava eram a dobradinha Rubber Soul-Revolver - idênticos em qualidade musical nota 10, mas bem diferenciados tecnicamente um do outro.
Então, por que é que George Martin não contou a história de como ele trabalhou no Abbey Road?
Por outro lado, lendo todas as fichas técnicas dos LPs, me chamou a atenção o nome do engenheiro de som GEOFF EMERICK. E de uns meses para cá confidenciei a alguns amigos minha teoria de que o SOM dos Beatles mudou substancialmente quando o Geoff assumiu o controle dos botões. Para tornar a comparação mais fácil, me baseei nas características estridentes do Abbey Road, em cuja contracapa li pela primeira vez (1969) o crédito para ele. Mas depois soube que ele era o engenheiro oficial dos Beatles exatamente desde o Revolver. Comecei a frase e não terminei direito: pode-se perceber que a diferença entre o som do Rubber Soul e o som do Revolver pode ser, digamos assim, "compactada" (rss): comparem o single "DayTripper"/"We can work it out" com o single "Paperback Writer"/"Rain". Nos 2 lados desse disquinho percebi o som do Abbey Road.
Neste início de 2014, minhas teorias foram confirmadas, e minhas preces atendidas: saiu o livro que conta os "making of" desde o Revolver até tudo que eu queria saber sobre o Abbey Road (e ainda quero saber, pois ainda não cheguei no capítulo específico).

Quem escreve o livro é o Geoff! (ajudado por um ghost-writer não muito competente).
Mas a competencia que faltou ao ghost-writer abunda nos macetes engenheirísticos do Geoff. Estou devorando o livro, e nesta hora ainda estou nos capítulos sobre o Pepper, que repetem tudo que o Martin tinha escrito no livro dele, mas desta vez de uma forma muito mais bacana, muito mais apropriada para minha percepção de "arquiteto que virou engenheiro" (não necessariamente de som). Talvez antes deste fim de semana lerei os capítulos que poderão mudar minha vida: todas as histórias por trás das gravações de Abbey Road, o melhor LP da história do rock 'n' roll... parafraseando Lennon, eu poderia até ser mais popular que Cristo, de tanto que já tentaram me crucificar pela afirmação que acabo de repetir.

Para quem não conseguir enxergar direito a imagem que colei: o título do livro é "Here, There and Everywhere - Minha Vida Gravando os Beatles", de Geoff Emerick, lançamento de 2013 da editora Novo Século.

PS.: Este post-scriptum pode ser pulado por quem não quiser ler nenhum conteúdo que não seja relacionado a música. É só para afirmar que a matéria que inaugurou este blog (da Galeria) foi postada exatamente na hora que planejei: à zero hora e um minuto desta quinta-feira dia 23. Mas, nos rascunhos, já tinha percebido que os leitores se depararariam com muitas horas de "delay"... para trás, obedecendo a algum fuso horário estapafúrdio. Depois, tentando mudar a configuração do blog, conferi que estou ajustado para um fuso do Oceano Pacífico, e não achei opções para mudança a não ser horários do Hawaii ou Alaska!! E ainda não achei onde é que eu completo meu perfil "Quem sou eu"! Tenham um pouco de paciencia.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Galeria

Surgiu-me a necessidade premente de criar este blog nesta importante passagem entre os dias 22 e 23 de janeiro, que me parece ser uma data de ruptura e mudança na minha vida profissional (e talvez pessoal). Farei a primeira postagem na primeira hora do dia 23, mas só divulgarei a existencia do blog daqui alguns dias, quando conseguir que o nome do blog possa ser lido com a formatação gráfica que desejo.
Tenho ideia de quais serão os primeiros textos escritos para o blog, mas hoje tenho pressa e vou "colar" aqui uma crônica que escrevi há mais de 10 anos sobre a Galeria do Rock.
Não queria inaugurar o blog falando da Galeria, mas, por um triste motivo, a data vem a calhar, pois entre as diversas figuras que eu cruzava na Baratos Afins e nas happy hours da Ayrosa, existem 4 pessoas com as quais não cheguei a fazer amizade, mas... apertei um par de vezes as mãos de cada membro da formação clássica da banda Golpe de Estado. E, justamente aquele com quem menos conversei desse quarteto, não terei mais oportunidade de papear.
Dedico esta crônica inaugural deste blog ao guitarrista do Golpe, Helcio Aguirra. Que descanse bem.

 
A GALERIA DO ROCK: PRIMÓRDIOS
 
Fui informado de que esta publicação será lida em todo o Brasil. Então talvez muitos leitores acharão muito pedante, a princípio, o tema desta crônica: um paulistano fazendo uma apaixonada exaltação de um shopping-center!

Shopping-Centers: não existe nada mais antipático que esses templos do consumo e do consumismo, repletos de patricinhas e mauricinhos. Mas vou falar de um shopping diferente.

Tecnicamente, não há por que não chamar de shopping-center o condomínio Grandes Galerias, um edifício com cinco andares de lojas que liga a rua 24 de Maio à Avenida São João, em frente ao Largo Paissandu, no centro velho da cidade. O curioso é que este edifício, com uma arquitetura cheia de curvas a la Oscar Niemeyer, foi concebido pelo menos uma década antes que o Shopping Center Iguatemi, o primeiro centro de compras em S. Paulo a receber esse nome americanizado.

Durante os anos 70 (acho muito imbecil a mania que se tornou regra entre os jornalistas que querem se dizer atualizados com o atual milênio escrevendo “anos 1970”, “década de 1950” e por aí vai) eu costumava vasculhar os saldões de ofertas das lojas de discos. Foi quando comecei a ser realmente um colecionador de discos. E no ano de 1976 conheci aquela que foi a primeira loja de discos daquela que hoje todos conhecem com o nome de Galeria do Rock.

A loja se chamava Wop-Bop, e estava perdida no segundo andar da galeria, em meio a um comércio que eu honestamente não lembro o que era. A primeira vez que entrei lá, o René e o Toninho, proprietários do pedaço, exibiram-me discos usados de artistas que eu achava que nunca seriam lançados no Brasil: nomes como The Yardbirds, Captain Beefheart, Buffalo Springfield, Jethro Tull, Jefferson Airplane... Tudo a preços um pouco mais baixos que os do Museu do Disco, que era a principal importadora de SP, mas mesmo assim um tanto quanto inacessíveis para o meu bolso de estudante.

Não cheguei a ser um freqüentador assíduo da Wop-Bop. O que realmente me tornou um dos fundadores (não como lojista e sim enquanto consumidor) da Galeria do Rock foi quando, em 1978, fiz amizade com o Grilo Falante, proprietário da segunda loja (cronologicamente falando) da Galeria do Rock. Foi lá que me tornei parte de uma turma de fanáticos por rock dos anos 60. O primeiro contato que fiz lá foi com um certo Richard, com o qual trocava muitas idéias sobre o conjunto The Kinks. Demorei para saber que o nome dele não era Richard: era um apelido em homenagem ao guitarrista Keith Richards, dos Rolling Stones.

Foi o próprio Richard que começou a apelidar todos os freqüentadores do Grilo Falante, com sobrenomes bem “underground”. Formou-se assim uma turma de malucos e semi-desocupados: o Valdir Moon, o Maurício Watts, o Lauro Kantner, o Neno Quaife, o Flávio Ayler, o Pedro Aoxomoxoa, o Paolo Chepito Areas... e eu era o Claudio Zappa!

Eu era recém-formado e, em meu primeiro emprego, dava aulas de desenho numa escola do interior, apenas dois dias por semana. Nos outros dias, eu passava praticamente todas as tardes na companhia daqueles malucos. E trocávamos idéias sobre rock (que na época era uma coisa ainda um pouco marginal), e muita contracultura. O Grilo colecionava histórias em quadrinhos do Robert Crumb e dos Freak Brothers; eu consegui um livro (sem capa) do Abbie Hoffman, um dos gurus da esquerda radical dos Estados Unidos, pelo qual o Grilo me ofereceu um disco do The Who. O engraçado é que no dia em que fiz amizade com o Grilo nossa conversa foi mais sobre Tropicalismo: comparamos nossas coleções de raridades do Gilberto Gil, e o Grilo saiu vencedor pois ele possuía o compacto com “A Luta Contra A Lata Ou A Falência do Café”, um lado B muito engraçado que eu escutava na Rádio Excelsior em 1968 (o lado A do compacto não podia ser tocado, tratava-se da polêmica “Questão de Ordem”).

Passavam-se as semanas e eram apenas aquelas duas lojas, freqüentadas por turmas rivais, já que o pessoal da Wop-Bop, no segundo andar da Galeria, era mais chegado ao rock “new wave” de Patti Smith, Blondie, Elvis Costello. Nós da Grilo Falante, um andar abaixo, curtíamos mais Jimi Hendrix, Frank Zappa, Allman Brothers, e dizíamos que o som dos nossos rivais era “rock para gays”. Mas tanto uns como outros admirávamos os Kinks, os Byrds, os Beach Boys, os Zombies – aliás, este último conjunto eu só fui conhecer depois que o Renê e o Toninho escreveram a seu respeito numa revista que eles publicaram (um dos primeiros “fanzines”, revistas independentes sobre música). Essa revista contava com um terceiro colaborador, um tal de A. C. Senefonte, que mais tarde ficou famoso sob a alcunha de Kid Vinil...

Meses depois surgiram mais duas lojas, a Music House, do Márcio e do Ségis, e a Baratos Afins, do Luiz Calanca (ambas estão lá até hoje). Foi nessa época que a nossa turma cometeu um ato ousado: o Grilo e o Richard fundaram o fã-clube A.S.A.S., isto é, Amigos do Som dos Anos Sessenta e, para marcarmos a ocasião, planejamos um ato público em frente ao Teatro Municipal, com uma fogueira na qual seriam queimados discos de Donna Summer, Village People e todos os ícones da discotèque, que era o que mais odiávamos! Durante duas semanas juntamos uma pilha de dezenas (talvez uma centena) de LPs que considerávamos porcaria. No dia marcado, fizemos uma passeata de umas vinte pessoas, lemos um manifesto “contra a música de baixa qualidade”, só não houve fogueira porque a polícia tomou conhecimento do ato e, sabiamente, nos proibiu de fazer a tal queima, que acabou sendo substituída por uma caminhada até a frente do cine Metro, na avenida São João, que naquele momento exibia uma sessão dupla com filmes do John Travolta! O evento chegou a ser noticiado na Folha de São Paulo e no Jornal da Tarde (este último fez um comentário crítico advertindo que nossa frustrada fogueira “misturava lenha de florestas diferentes”, já que junto dos ícones da discotèque seriam queimados também discos dos Sex Pistols, Ramones e Kiss).

Depois de fundarmos o clube ASAS, lançamos a revista ASAS que, hoje admito, era uma tentativa descarada de imitar o “Wop-Bop Fanzine”!

Com apenas essas quatro lojas de discos, esses foram os primórdios da Galeria do Rock. As demais lojas daquele centro comercial eram, predominantemente, de materiais de fotografia e silk-screen. Havia também vários alfaiates. No restante, a maioria das portas simplesmente estavam fechadas, sem uso (até hoje o quarto e quinto andares continuam sub-utilizados). Um belo dia, comentávamos que surgira uma quinta loja, a Punk Rock Discos! Mais inimigos em potencial! Mas aí surgiu logo depois uma sexta loja, uma sétima, uma oitava, e aí deu-se o fenômeno: em poucos meses os dois primeiros andares da galeria estavam tomados por lojinhas de discos. Antes disso, a Wop-Bop mudara-se para a rua Barão de Itapetininga, não sem antes distribuir um folhetinho comunicando a mudança de endereço “devido a alguns grilos e outros baratos...”

Com a mudança da Wop-Bop e o fechamento da Grilo Falante, poucos anos depois, fechou-se um ciclo. Hoje a Galeria do Rock tornou-se uma Meca para várias tribos: além dos roqueiros, fervilham lá turmas de skatistas, de tatuadores e tatuados. No andar térreo estão os coreanos, com muitas lojas de roupas; no subsolo, lojas de funk e black music. Os roqueiros se dividem: a tribo maior é a dos metaleiros (que abominam este termo, inventado pela Rede Globo por ocasião do primeiro Rock In Rio: preferem serem chamados de headbangers), mas há também os góticos, o pessoal dos anos cinqüenta, etc. Não estão presentes o pessoal da dance-music, hip-hop e eletrônicos: estes ocupam atualmente a Galeria Presidente, que fica na mesma rua 24 de Maio, a 50 metros do Edifício Grandes Galerias.

Este, conforme já foi publicado em revistas especializadas, abriga a maior concentração de CDs, em um único espaço, da América Latina. Astros do rock internacional, ao virem para S. Paulo com suas turnês, fazem questão de dar uma passadinha por lá, como por exemplo o Bruce Dickinson do Iron Maiden (ou será que estou confundindo com alguém do Metallica ou Queensryche? Não sou dessa tribo...) Recentemente passou por lá, comprando muitos vinis, a vocalista Chrissie Hynde do conjunto The Pretenders (já repararam que eu sou do tempo dos “conjuntos”, e não das “bandas”), a qual, dizem, gostou tanto do centro de SP que adquiriu um apartamento na avenida São Luís!

O aspecto decadente da Galeria melhorou muito depois que os lojistas se uniram, expulsaram a administração corrupta que havia lá e elegeram como síndico o Toninho (não o da Wop-Bop e sim outro Toninho, que não era do Rock; ele é proprietário de uma loja de material fotográfico). O Toninho consertou as escadas rolantes, acabou com os pontos de droga, colocou uma segurança eficiente, revalorizou alguns aspectos da arquitetura original (o que lhe valeu algumas inimizades, pois um certo dia, ou melhor, numa certa calada da noite ele arrancou os letreiros de praticamente um andar inteiro, para diminuir a poluição visual). Nas últimas eleições municipais o Toninho da Galeria do Rock (assim, com esse nome mesmo) foi candidato a vereador. Não deu para se eleger, apesar do meu voto entusiasmado. Pelo menos ele continua firmão na administração da Galeria.

Eu já não vou tanto lá. Prefiro procurar LPs de vinil na feira da praça Benedito Calixto, em Pinheiros, aos sábados. Quando vou ao Centro, às sexta-feiras, vou caçar vinis num velho prédio comercial da rua Sete de Abril (que pode ser motivo de uma crônica futura), e aí dou uma breve esticadinha na Baratos para dar um abraço no Luiz Afins e no Valdir Moon, e relembrar os tempos das nossas alegres cervejadas na Ayrosa, um bar tradicionalíssimo que estava no Largo Paissandu desde os anos 30 ou 40 e que infelizmente foi decaindo até fechar. Nunca mais houve happy-hours tão boas como aquelas da Ayrosa, que me perdoem os responsáveis pelo Bar Brahma, pelo Ponto Chic e pelo Salada Record (havia outro ponto que apreciávamos, que infelizmente também não existe mais: a Leiteria Americana, na rua Xavier de Toledo, cuja época remontava aos Modernistas da Semana de 1922).

Nunca mais encontrei o Grilo Falante. Soube que ele fez companhia ao Pedro Aoxomoxoa e ao Luiz Afins quando estes, triunfalmente, dividiram um baseado com o Eric Burdon (do conjunto The Animals) no camarim deste último quando de seu show em Sampa, já nos anos 90! Um mês atrás encontrei o Maurício Watts, o qual não via há muitos anos. Encontramo-nos para buscar uns LPs raros e, nesse dia, era para o Grilo ir junto, mas na última hora ele não apareceu. Tudo bem, afinal o lema da loja dele era “Never Trust A Cricket” (“nunca confie num Grilo”).
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Claudio Finzi Foá, ou Claudio Zappa, ou “se o claudio foafins”, é arquiteto, urbanista e colecionador de vinis.

Nota do cronista: por um lamentável descuido, não registrei a data em que este texto foi escrito. Algumas “palavras-chave” me dão a pista de que pode ter sido em 2003, ou final de 2002.

Foi um texto que uma amiga me encomendou, para uma revista em que ela colaborava. Nunca soube o nome da revista, e tudo indica que não foi publicado. Ele ficou guardado por muitos anos, até que resolvi mostrá-lo para vários amigos. Alguns taxaram o texto de homofóbico, por causa de uma única palavra (procure bem que você encontra). Outros poderão achar que há apologia a drogas (mais uma palavra isolada, mais fácil de achar, mas a apologia é desmentida no próprio decorrer do texto).

O Grilo Falante me disse que adorou a crônica. Para variar, não se pode confiar nele (risos).

C.F.F.

julho de 2013