Tenho ideia de quais serão os primeiros textos escritos para o blog, mas hoje tenho pressa e vou "colar" aqui uma crônica que escrevi há mais de 10 anos sobre a Galeria do Rock.
Não queria inaugurar o blog falando da Galeria, mas, por um triste motivo, a data vem a calhar, pois entre as diversas figuras que eu cruzava na Baratos Afins e nas happy hours da Ayrosa, existem 4 pessoas com as quais não cheguei a fazer amizade, mas... apertei um par de vezes as mãos de cada membro da formação clássica da banda Golpe de Estado. E, justamente aquele com quem menos conversei desse quarteto, não terei mais oportunidade de papear.
Dedico esta crônica inaugural deste blog ao guitarrista do Golpe, Helcio Aguirra. Que descanse bem.
A
GALERIA DO ROCK: PRIMÓRDIOS
Fui
informado de que esta publicação será lida em todo o Brasil. Então
talvez muitos leitores acharão muito pedante, a princípio, o tema
desta crônica: um paulistano fazendo uma apaixonada exaltação de
um shopping-center!
Shopping-Centers:
não existe nada mais antipático que esses templos do consumo e do
consumismo, repletos de patricinhas e mauricinhos. Mas vou falar de
um shopping diferente.
Tecnicamente,
não há por que não chamar de shopping-center o condomínio Grandes
Galerias, um edifício com cinco andares de lojas que liga a rua 24
de Maio à Avenida São João, em frente ao Largo Paissandu, no
centro velho da cidade. O curioso é que este edifício, com uma
arquitetura cheia de curvas a la Oscar Niemeyer, foi concebido pelo
menos uma década antes que o Shopping Center Iguatemi, o primeiro
centro de compras em S. Paulo a receber esse nome americanizado.
Durante
os anos 70 (acho muito imbecil a mania que se tornou regra entre os
jornalistas que querem se dizer atualizados com o atual milênio
escrevendo “anos 1970”, “década de 1950” e por aí vai) eu
costumava vasculhar os saldões de ofertas das lojas de discos. Foi
quando comecei a ser realmente um colecionador de discos. E no ano de
1976 conheci aquela que foi a primeira loja de discos daquela que
hoje todos conhecem com o nome de Galeria do Rock.
A
loja se chamava Wop-Bop, e estava perdida no segundo andar da
galeria, em meio a um comércio que eu honestamente não lembro o que
era. A primeira vez que entrei lá, o René e o Toninho,
proprietários do pedaço, exibiram-me discos usados de artistas que
eu achava que nunca seriam lançados no Brasil: nomes como The
Yardbirds, Captain Beefheart, Buffalo Springfield, Jethro Tull,
Jefferson Airplane... Tudo a preços um pouco mais baixos que os do
Museu do Disco, que era a principal importadora de SP, mas mesmo
assim um tanto quanto inacessíveis para o meu bolso de estudante.
Não
cheguei a ser um freqüentador assíduo da Wop-Bop. O que realmente
me tornou um dos fundadores (não como lojista e sim enquanto
consumidor) da Galeria do Rock foi quando, em 1978, fiz amizade com o
Grilo Falante, proprietário da segunda loja (cronologicamente
falando) da Galeria do Rock. Foi lá que me tornei parte de uma turma
de fanáticos por rock dos anos 60. O primeiro contato que fiz lá
foi com um certo Richard, com o qual trocava muitas idéias sobre o
conjunto The Kinks. Demorei para saber que o nome dele não era
Richard: era um apelido em homenagem ao guitarrista Keith Richards,
dos Rolling Stones.
Foi
o próprio Richard que começou a apelidar todos os freqüentadores
do Grilo Falante, com sobrenomes bem “underground”. Formou-se
assim uma turma de malucos e semi-desocupados: o Valdir Moon, o
Maurício Watts, o Lauro Kantner, o Neno Quaife, o Flávio Ayler, o
Pedro Aoxomoxoa, o Paolo Chepito Areas... e eu era o Claudio Zappa!
Eu
era recém-formado e, em meu primeiro emprego, dava aulas de desenho
numa escola do interior, apenas dois dias por semana. Nos outros
dias, eu passava praticamente todas as tardes na companhia daqueles
malucos. E trocávamos idéias sobre rock (que na época era uma
coisa ainda um pouco marginal), e muita contracultura. O Grilo
colecionava histórias em quadrinhos do Robert Crumb e dos Freak
Brothers; eu consegui um livro (sem capa) do Abbie Hoffman, um dos
gurus da esquerda radical dos Estados Unidos, pelo qual o Grilo me
ofereceu um disco do The Who. O engraçado é que no dia em que fiz
amizade com o Grilo nossa conversa foi mais sobre Tropicalismo:
comparamos nossas coleções de raridades do Gilberto Gil, e o Grilo
saiu vencedor pois ele possuía o compacto com “A Luta Contra A
Lata Ou A Falência do Café”, um lado B muito engraçado que eu
escutava na Rádio Excelsior em 1968 (o lado A do compacto não podia
ser tocado, tratava-se da polêmica “Questão de Ordem”).
Passavam-se
as semanas e eram apenas aquelas duas lojas, freqüentadas por turmas
rivais, já que o pessoal da Wop-Bop, no segundo andar da Galeria,
era mais chegado ao rock “new wave” de Patti Smith, Blondie,
Elvis Costello. Nós da Grilo Falante, um andar abaixo, curtíamos
mais Jimi Hendrix, Frank Zappa, Allman Brothers, e dizíamos que o
som dos nossos rivais era “rock para gays”. Mas tanto uns como
outros admirávamos os Kinks, os Byrds, os Beach Boys, os Zombies –
aliás, este último conjunto eu só fui conhecer depois que o Renê
e o Toninho escreveram a seu respeito numa revista que eles
publicaram (um dos primeiros “fanzines”, revistas independentes
sobre música). Essa revista contava com um terceiro colaborador, um
tal de A. C. Senefonte, que mais tarde ficou famoso sob a alcunha de
Kid Vinil...
Meses
depois surgiram mais duas lojas, a Music House, do Márcio e do
Ségis, e a Baratos Afins, do Luiz Calanca (ambas estão lá até
hoje). Foi nessa época que a nossa turma cometeu um ato ousado: o
Grilo e o Richard fundaram o fã-clube A.S.A.S., isto é, Amigos do
Som dos Anos Sessenta e, para marcarmos a ocasião, planejamos um ato
público em frente ao Teatro Municipal, com uma fogueira na qual
seriam queimados discos de Donna Summer, Village People e todos os
ícones da discotèque,
que era o que mais odiávamos! Durante duas semanas juntamos uma
pilha de dezenas (talvez uma centena) de LPs que considerávamos
porcaria. No dia marcado, fizemos uma passeata de umas vinte pessoas,
lemos um manifesto “contra a música de baixa qualidade”, só não
houve fogueira porque a polícia tomou conhecimento do ato e,
sabiamente, nos proibiu de fazer a tal queima, que acabou sendo
substituída por uma caminhada até a frente do cine Metro, na
avenida São João, que naquele momento exibia uma sessão dupla com
filmes do John Travolta! O evento chegou a ser noticiado na Folha
de São Paulo
e no Jornal
da Tarde (este
último fez um comentário crítico advertindo que nossa frustrada
fogueira “misturava lenha de florestas diferentes”, já que junto
dos ícones da discotèque
seriam queimados também discos dos Sex Pistols, Ramones e Kiss).
Depois
de fundarmos o clube ASAS, lançamos a revista ASAS que, hoje admito,
era uma tentativa descarada de imitar o “Wop-Bop Fanzine”!
Com
apenas essas quatro lojas de discos, esses foram os primórdios da
Galeria do Rock. As demais lojas daquele centro comercial eram,
predominantemente, de materiais de fotografia e silk-screen. Havia
também vários alfaiates. No restante, a maioria das portas
simplesmente estavam fechadas, sem uso (até hoje o quarto e quinto
andares continuam sub-utilizados). Um belo dia, comentávamos que
surgira uma quinta loja, a Punk Rock Discos! Mais inimigos em
potencial! Mas aí surgiu logo depois uma sexta loja, uma sétima,
uma oitava, e aí deu-se o fenômeno: em poucos meses os dois
primeiros andares da galeria estavam tomados por lojinhas de discos.
Antes disso, a Wop-Bop mudara-se para a rua Barão de Itapetininga,
não sem antes distribuir um folhetinho comunicando a mudança de
endereço “devido a alguns grilos e outros baratos...”
Com
a mudança da Wop-Bop e o fechamento da Grilo Falante, poucos anos
depois, fechou-se um ciclo. Hoje a Galeria do Rock tornou-se uma Meca
para várias tribos: além dos roqueiros, fervilham lá turmas de
skatistas, de tatuadores e tatuados. No andar térreo estão os
coreanos, com muitas lojas de roupas; no subsolo, lojas de funk e
black music. Os roqueiros se dividem: a tribo maior é a dos
metaleiros (que abominam este termo, inventado pela Rede Globo por
ocasião do primeiro Rock In Rio: preferem serem chamados de
headbangers), mas há também os góticos, o pessoal dos anos
cinqüenta, etc. Não estão presentes o pessoal da dance-music,
hip-hop e eletrônicos: estes ocupam atualmente a Galeria Presidente,
que fica na mesma rua 24 de Maio, a 50 metros do Edifício Grandes
Galerias.
Este, conforme já foi publicado em revistas especializadas, abriga a maior concentração de CDs, em um único espaço, da América Latina. Astros do rock internacional, ao virem para S. Paulo com suas turnês, fazem questão de dar uma passadinha por lá, como por exemplo o Bruce Dickinson do Iron Maiden (ou será que estou confundindo com alguém do Metallica ou Queensryche? Não sou dessa tribo...) Recentemente passou por lá, comprando muitos vinis, a vocalista Chrissie Hynde do conjunto The Pretenders (já repararam que eu sou do tempo dos “conjuntos”, e não das “bandas”), a qual, dizem, gostou tanto do centro de SP que adquiriu um apartamento na avenida São Luís!
O
aspecto decadente da Galeria melhorou muito depois que os lojistas se
uniram, expulsaram a administração corrupta que havia lá e
elegeram como síndico o Toninho (não o da Wop-Bop e sim outro
Toninho, que não era do Rock; ele é proprietário de uma loja de
material fotográfico). O Toninho consertou as escadas rolantes,
acabou com os pontos de droga, colocou uma segurança eficiente,
revalorizou alguns aspectos da arquitetura original (o que lhe valeu
algumas inimizades, pois um certo dia, ou melhor, numa certa calada
da noite ele arrancou os letreiros de praticamente um andar inteiro,
para diminuir a poluição visual). Nas últimas eleições
municipais o Toninho da Galeria do Rock (assim, com esse nome mesmo)
foi candidato a vereador. Não deu para se eleger, apesar do meu voto
entusiasmado. Pelo menos ele continua firmão na administração da
Galeria.
Eu
já não vou tanto lá. Prefiro procurar LPs de vinil na feira da
praça Benedito Calixto, em Pinheiros, aos sábados. Quando vou ao
Centro, às sexta-feiras, vou caçar vinis num velho prédio
comercial da rua Sete de Abril (que pode ser motivo de uma crônica
futura), e aí dou uma breve esticadinha na Baratos para dar um
abraço no Luiz Afins e no Valdir Moon, e relembrar os tempos das
nossas alegres cervejadas na Ayrosa, um bar tradicionalíssimo que
estava no Largo Paissandu desde os anos 30 ou 40 e que infelizmente
foi decaindo até fechar. Nunca mais houve happy-hours
tão boas como aquelas da Ayrosa, que me perdoem os responsáveis
pelo Bar Brahma, pelo Ponto Chic e pelo Salada Record (havia outro
ponto que apreciávamos, que infelizmente também não existe mais: a
Leiteria Americana, na rua Xavier de Toledo, cuja época remontava
aos Modernistas da Semana de 1922).
Nunca mais encontrei o Grilo Falante. Soube que ele fez companhia ao Pedro Aoxomoxoa e ao Luiz Afins quando estes, triunfalmente, dividiram um baseado com o Eric Burdon (do conjunto The Animals) no camarim deste último quando de seu show em Sampa, já nos anos 90! Um mês atrás encontrei o Maurício Watts, o qual não via há muitos anos. Encontramo-nos para buscar uns LPs raros e, nesse dia, era para o Grilo ir junto, mas na última hora ele não apareceu. Tudo bem, afinal o lema da loja dele era “Never Trust A Cricket” (“nunca confie num Grilo”).
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Claudio Finzi Foá, ou Claudio Zappa, ou “se o claudio foafins”, é arquiteto, urbanista e colecionador de vinis.
Nota
do cronista:
por um lamentável descuido, não registrei a data em que este texto
foi escrito. Algumas “palavras-chave” me dão a pista de que pode
ter sido em 2003, ou final de 2002.
Foi
um texto que uma amiga me encomendou, para uma revista em que ela
colaborava. Nunca soube o nome da revista, e tudo indica que não foi
publicado. Ele ficou guardado por muitos anos, até que resolvi
mostrá-lo para vários amigos. Alguns taxaram o texto de homofóbico,
por causa de uma única palavra (procure bem que você encontra).
Outros poderão achar que há apologia a drogas (mais uma palavra
isolada, mais fácil de achar, mas a apologia é desmentida no próprio
decorrer do texto).
O
Grilo Falante me disse que adorou a crônica. Para variar, não se
pode confiar nele (risos).
C.F.F.
julho
de 2013
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