Coisas
(Moacir Santos)
Em 24 de janeiro postei uma matéria com título "Coisas... de Moraes".
O album Coisas, do maestro Moacir Santos foi uma obra muito avançada para a época em que foi lançada (1965). A originalidade estava já nos títulos das faixas (todas elas instrumentais): cada música era uma coisa, e os títulos eram: "Coisa nº1", "Coisa nº2", "Coisa nº3"... até chegar na "Coisa nº10".
Examinando-se a ficha técnica, ficamos sabendo que as "Coisas" de 1 a 6 foram gravadas com um time de músicos, e as de 7 a 10 com outra formação (embora alguns músicos estejam presentes em ambas as etapas).
Depreende-se portanto que o maestro ia numerando as obras cronologicamente à medida que eram gravadas - e provavelmente usava esses números para colar uma etiqueta em cada rolo de fita.
Mas na hora de finalizar o disco, espalhou as 10 composições pelos 2 lados do LP da maneira que um produtor normalmente faz - essa aqui, por seu impacto, é boa pra abrir o disco, essa outra fica bem no meio do lado 2, etc...
Então, o album Coisas abre com a "Coisa nº4"; depois vem a "Coisa nº10", depois a "Coisa nº5", e por aí vai, até terminar, no final do lado 2, com a "Coisa nº8".
Em 2004 saiu uma reedição em CD do Coisas, e eu (possuidor do vinil), tive a ideia de presenteá-lo a uma velha conhecida, uma socióloga de inteligencia ímpar chamada Silvana.
A Silvana adorou o presente. Mas a inteligencia dela era tão singular que às vezes a levava a atitudes completamente inesperadas.
Logo depois que ela abriu o pacote com o presente, fiz menção de colocar o disquinho para tocar no aparelho de som dela. Mas a Silvana foi ríspida: "Claudio, eu me recuso a ouvir esse CD!"
"Puxa... você não gostou do meu presente?" respondi. E ela: "Eu sei que as músicas são boas, mas não engulo essa ordem misturada das "Coisas". Só escuto se começar com a "Coisa nº1" e terminar com a "Coisa nº10", e as outras "Coisas" no meio eu exijo que sejam na ordem numérica certinha!"
"NÃO SEJA POR ISSO", disse eu. "É só programar no cd-player a ordem que você quer".
E ela: "Ah, não, Claudio, não vem com essa! Você sabe que minha especialidade é Ciencias Humanas e tenho preguiça de aprender a mexer com essas coisas tecnológicas! Você não tem um amigo que faz gravação em CD? Pede pra ele copiar cada faixa desse CD pra um computador e em seguida passar pra um CD-R. O tempo total é muito menos que 80 minutos, dá pra finalizar a midia com folga".
Hoje, ao lembrar dessa última frase, percebo que a Silvana me enganou por todo esse tempo em que ela afirmou não entender nada de Ciencias Exatas.
Fiz como ela sugeriu, e meu presente acabou sendo um duplo-cd: substituí a embalagem acrílica original por uma daquelas para dois CDs, e a Silvana ficou com as 2 versões. Mas posso afirmar sem nenhum risco de erro que TODAS as vezes que ela ouviu o Coisas do Moacir Santos foi sempre no CD-R com o modo "ordinal", e nunca na forma "misturada". E teve uma surpresa quando ouviu a "Coisa nº5": "Êi, isso é 'Nanã'!"
De fato, uma das "Coisas" recebeu posteriormente letra de Mario Telles, e com o título "Nanã" foi regravada por uma infinidade de intérpretes: Wilson Miranda, Wilson Simonal, Nara Leão, Edison Machado, Mario Castro Neves, Conjunto Som 4, Sergio Mendes. Muitas dessas versões são instrumentais, mas mesmo assim têm o título "Nanã" e o crédito com o nome do letrista. Apenas no album original do Moacir Santos ela é identificada como "Coisa nº... nº... nº...
Ih... esqueci... esqueci qual é o número da "coisa" que gerou o "Nanã"! O que sei com certeza absoluta é que é nº2 ou nº5.
E há no disco outra faixa da qual também gosto muito, que é com certeza a nº5... ou a nº2! É uma melodia que gruda bem fácil no meu ouvido, com uma estrutura meio modal, e ficou bem acessível para mim porque a conheci também num disco de Sergio Mendes. O nome do disco é Você ainda não ouviu nada e ele traz outra composição originária do Coisas. Sabe que número? Não sei, é o "Nanã", creditada como "Nanã" de Moacir Santos e Mario Telles!
Você ainda não ouviu nada!
(Sergio Mendes & Bossa Rio)
Então, temos uma espécie de problema de aritmética: temos 2 músicas, uma é a 2 e a outra é a 5. Para lembrar qual é qual, estou com todos os discos aqui ao meu lado, do Moacir Santos e do Sergio Mendes, em vinil e em CD, e em alguns segundos eu os consulto para saber qual é qual, mas logo depois, quando vou digitar essas linhas, já esqueci!
Essa traquinagem do Moacir Santos, de inventar um disco com esses títulos bizarros, me causou uma enorme enrascada na última segunda-feira, dia 10 de março. Mas a culpa não foi tanto dele.
A culpa foi da Silvana, que um dia antes fez uma enorme maldade comigo. Já a perdoei, mas confesso que, sabedor de todas as virtudes de seu caráter, eu realmente não esperava que a Silvana fosse aprontar essa, naquele dia 9 de março:
Ela morreu. Faleceu no início daquela tarde de domingo.
Teve uma repentina dificuldade respiratória, e morreu em casa, descansando. Não dormindo, mas talvez coisa melhor que isso: morreu ouvindo uma música de bossa nova bem singela. Uma de suas filhas, a Paula, intuindo que a hora ia chegar, pôs no aparelhinho portátil ao lado da cama este disquinho:
Wanda Vagamente
(Wanda Sá)
Silvana morreu (e a música a acalmou), e a Paula continuou ouvindo até o fim o cd "Vagamente" da Wanda Sá. E sugeriu que a cerimonia de cremação fosse acompanhada pelo som desse disco, talvez na íntegra. Imaginávamos que a cerimonia duraria entre 30 e 40 minutos, o tempo certinho para caber um disco originalmente gravado no formato LP. Mesmo assim, tive a ideia de pegar, na casa da Silvana, o cd-duplo Coisas que eu tinha presenteado. Poderíamos dividir a cerimonia em duas partes, e em cada uma tocar parte de um dos CDs (mas também não podíamos deixar de incluir alguma música da Elis Regina, que a Silvana adorava).
Olhando para a contracapa do CD do Moacir Santos fiz uns rápidos cálculos mentais: a "Coisa nº5" era a faixa nº3, e a "Coisa nº2" era a faixa nº5. Já perceberam a bagunça, não é? Mas pelo menos tive certeza que se tocássemos a primeira metade do CD estariam inclusas as duas que eu queria (a que se tornou "Nanã" e a que não se tornou "Nanã").
Mas... e se na hora H eu precisasse escolher uma dessas duas? Eu preferia muito mais que fosse a "não-Nanã", por achá-la mais apropriada para a cerimonia. Tentei de tudo quanto é jeito mentalizar as vezes em que ouvi esse disco, e não conseguia lembrar qual vinha primeiro! Procurei algum indício no encarte, talvez um crédito ao Mario Telles, mas nada feito... aliás, o Mario Telles é creditado em outra faixa, que com certeza não era a que me "desinteressava"!
Na hora da inscrição para a cerimonia fomos informados, como temíamos, que a "trilha sonora" não podia passar de 10 minutos. Então, na maior pressa, tivemos que escolher 3 músicas: uma da Wanda Sá ("Vagamente", a faixa-título do seu disco), uma da Elis e uma do Moacir Santos.
E eu tive que decidir entre a "Coisa nº2" e a "Coisa nº5". Fiz ainda um esforço rememorativo e escolhi uma das duas. Não lembro o "número da coisa". Entreguei o cd original (o da fábrica) para o operador, e precisava dizer qual o nome da música que eu queria. Já viu a bagunça, né? A Paula me advertiu: "Claudio, vai dar errado, porque a faixa-número-isso é a coisa-número-aquilo, como garantir que ele não vai errar?"
Chegou então a hora do tio Claudio dizer "NÃO SEJA POR ISSO" pela segunda vez neste post do PALIgAP! E triunfalmente busquei no fundo da embalagem o CD-R com as "coisas" na ordem numérica!
Pronto! Não havia mais erro! Eu só precisava dizer ao operador se era pra tocar a faixa 2, que era a "Coisa nº2", ou a faixa 5, que era a "Coisa nº5".
E aí, Claudio? 2 ou 5? 5 ou 2? O encarte do cd trazia o tempo de cada faixa: uma tinha pouco mais de 2 minutos; outra tinha mais de 4. Embananei-me inteirinho. A Paula me "ajudou" a fazer as contas para dar direitinho os 10 minutos, mas desconfio que, graças a uma trapaça dela, conseguimos malandramente criar uma trilha sonora que ultrapassava os 12 minutos.
Resumindo: uma das duas, 2 ou 5, foi escolhida para fazer companhia à Wanda e à Elis.
Eu sabia muito bem que ambas eram ótimas músicas. Mas era uma espécie de questão de honra que tocasse aquela que eu planejara...
Confidenciei essa insegurança a um sobrinho, que respondeu: "Tenho certeza que as duas músicas são boas, é só você não dizer a ninguém se acertou ou errou!"
Percebi que ele tinha toda razão, e procurei ficar tranquilo. Mas, quando vi o operador entrar na cabine atrás do templo levando a pequena pilha de 3 disquinhos, tive me segurar pra não ir lá correndo e dizer: "Moço, deixa eu confirmar qual a faixa escolhida... Ah! É a 2? Não, por favor, não toca a 2, toca a 5!"
(ou então a variante: "Ah! É a 5? Não, por favor, não toca a 5, toca a 2!")
Desisti disso ao constatar que eu corria o risco de deixar errada uma coisa que estava certa, o que certamente me faria arrancar quase todos meus cabelos, deixando apenas os brancos.
A cerimonia foi bonita e emocionante. Todos apreciaram as músicas. Esta crônica chega agora ao seu final e, mesmo que eu dissesse se acertei ou errei na "coisa" do maestro Moacir Santos, não adiantaria nada, pois não posso me furtar ao dever de informar ao leitor que este é um relato verídico na essencia, mas misturado a elementos de ficção.
E, naquela cerimonia, quem matou a Silvana pra valer não foi nem uma nem outra coisa do Moacir Santos.
Foi a Elis ("Travessia").
. Silvana Finzi Foá
. (1950-2014)




