Em recente happy hour, um dos comensais comentou, e até trouxe pra vermos, o primeiro disco que ele comprou na vida:
Era o compacto do Trini Lopez com a música "La Bamba".
Na mesa, outro amigo que só conhecia essa música com Los Lobos. E aí fiz o comentário:
"Cada década teve seu La Bamba. Ritchie Valens nos anos 50, Trini Lopez nos 60, Los Lobos nos 80..."
Aí o dono do compacto chiou: "E nos anos 70, ninguém?", e tive que ficar calado (apesar de ter lembrado, depois, de uma versão dos Youngbloods, um bom conjunto que porém cometeu uma versão muito sem graça desse tema do folclore mexicano).
Domingo passado, numa feira de vinil na r. Teodoro Sampaio, em Pinheiros (mas os organizadores do evento anunciaram como sendo "na Vila Madalena". Por que?), adquiri o "La Bamba" da década de 70.
É um LP exatamente do ano de 1970, Open, do Blues Image (cujo disco de estreia, de 1 ano antes, é o que ilustra a abertura desta matéria.
O Open, cuja capa está aqui acima, é um LP imensamente melhor que o primeiro, e o que faz a diferença é a produção a cargo do Richard Podolor. O Podolor sempre foi chegado num "hammondão", basta ouvir os teclados nos discos que ele produziu para, entre outros, Steppenwolf e Three Dog Night.
Neste Blues Image não é só o organista (Skip Konte) que se destaca mas, principalmente, o guitarrista Mike Pinera, que depois foi da banda Ramatam e, antes disso, fez parte do Iron Butterfly no album Metamorphosis, disco que fazia questão de destacar na capa os nomes da dobradinha de guitarristas: PINERA & RHINO.
Rhino, o outro guitarrista (Larry Reinhardt, falecido em 2012) ficou famoso ao integrar o Captain Beyond, e o curioso é que esse Blues Image, o conjunto do Pinera (e não do Rhino) é, tranquilamente, um digno precursor do som do Captain (o Beyond); e há um Captain no Blues Image: a canção "Ride Captain Ride", que foi o maior hit deles, uma música tão bem feita que tocou nas rádios daqui, na época.
A semelhança com o Captain Beyond se deve, em parte, a sequencias de títulos interligados, e quando muda o nome da música muda bruscamente o "pattern" rítmico, com boa ajuda da percussão latina (também presente no Beyond) a cargo, aqui, do Joe Lala (falecido este ano), que depois faria alguma fama contribuindo para o esplêndido Stephen Stills/Manassas (e depois acompanhou turnês ao vivo de Crosby, Stills, Nash & Young).
Um desses "segues" é justamente o do "La Bamba", que tem uma bonita coda instrumental de apenas 1 minuto, em que a música segue sendo a mesma, mas o título da faixa passa a ser "Consuelate".
Na segunda e terceira parte desse La Bamba, os caras do Blues Image cantam estrofes que não fazem parte das versões do Trini e dos Lobos.
O outro "segue" motivou uma publicação americana a dizer que, apesar de um bom hit, o disco era uma porcaria, porque "Quem é que precisa de mais um Parchman Farm?" Idiotice do cara, que não quis ouvir a "Fugue U" de 50 segundos que precede esse blues de Mose Allison, e, na terceira parte da sequencia, uma quebra de ritmo de tirar o fôlego (1 minuto e meio) chamada "Wrath of Daisey".

